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FICÇÃO

NAS SOMBRAS

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Nas Sombras Por Mauro C. Souza
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Mauro C. Souza é autor da coleção de contos “Cadeiras Solitárias” e do romance “O Filho do Homem”.

Acordei naquela manhã com uma preguiça mórbida, estranhamente agradável, e sentindo o prazer de estar sozinho. Foi a primeira noite em que dormi e acordei, sem me preocupar com quem eu era. Me espreguicei e relaxei nos lençóis frios e retorcidos, mas ainda me sentindo deprimido. Passei a refletir sobre a vida e pensei no que fazer com ela. Finalmente, saí da cama e olhei pela janela lateral do quarto; depois desci para tomar café, e me preparei para uma agradável viagem ao passado.

A estrada seguia em longas curvas monótonas, e colinas suavemente inclinadas através das cercas brancas e vales verdes, tão deslumbrantes, que certamente me levariam ao meu passado, um lugar onde estão os segredos da minha alma. Quando criança, eu imaginava que essa estrada poderia me levar a qualquer lugar que eu sonhasse. Eu só tinha que seguir e viajar pelos caminhos tortuosos. O fim dessa estrada seria um lugar mágico. 

 

Percorri os quilômetros que me separavam do passado, dominado por mil pensamentos. Senti rigidez no meu corpo e desespero na minha alma. Conhecia muito bem essas estradas e nada era estranho para mim. Desci a alameda com um acelerado batimento cardíaco. Confesso que senti um clima de estranheza quando deveria me sentir em casa. Parecia que o meu coração queria saltar do meu peito, se libertar da prisão. Queria tudo e nada. Foi cansativo controlar a respiração.

Tentei me controlar, mas… quando me vi na periferia de São Paulo, de volta às velhas ruas, senti os nervos à flor da pele. Fiquei parado por um momento, olhando para a velha mansão — minha casa. Um tipo de casa que dificilmente se encontra hoje em dia, pois, pertence a um tempo que já se foi.

Cada cor era mais brilhante, cada ruído mais alto. Evitei olhar nos olhos daqueles que passavam por mim. Essas pessoas me ignoravam e se afastavam. Era vergonha ou medo? Essas coisas fizeram com que meu coração batesse com mais força ainda.

A casa ficava em uma rua pavimentada, mas ainda assim não era como uma casa na cidade. Embora a frente abrisse bem na calçada, as janelas dos fundos davam para o que já foi meu lugar preferido — o pomar do quintal, cheio de árvores frutíferas que perfumavam e embelezavam o jardim. Era como viver na orla da floresta o ano todo. 

O caminho rústico, depois de cada pedra assimétrica, estava cheio de ervas daninhas. Sem ninguém para cuidar, o gramado fino era mais musgo do que grama. O canto esquerdo foi obscurecido pelo salgueiro-chorão, que escorria para o solo úmido e macio. 

O pé de goiaba ficava do lado direito logo após o caminho de pedras. Podia se ver aglomerados de narcisos que erguiam suas cabeças douradas em meio às sombras das árvores, e havia flores silvestres por toda parte. As teias de galhos entrelaçados escondiam toda a visão de trás, embora fosse possível ver os eucaliptos espalhados pelo morro acima, para além das margens do riacho claro. 

O quintal já foi cuidado com muito amor, com rosas em canteiros em forma de círculos. Agora as ervas daninhas cresciam entre os tijolos cor-de-mel, os canteiros de rosas eram como selvas de espinhos e estavam cobertos de vegetação. Na parte de trás estava o abacateiro, que parecia não se importar com a aparência ao redor. O portão dos fundos era simples e rústico, com plantas de hera caindo em cascata sobre a cerca.

 

Como poderia desejar um quintal mais bonito, quando o jardim selvagem traz uma forma natural que agrada mais à alma?

O tempo realmente parecia ter parado, como se o tempo e eu tivéssemos envelhecido tanto que não poderíamos envelhecer mais, e tivéssemos sobrevivido a qualquer possibilidade de mudanças.

 

Por fim, ao anoitecer de um dia comum, houve uma mudança. Sem dúvida, era um dia típico, embora as coisas que aconteceram foram muito inusitadas. Talvez um sonho, talvez realidade, ou a percepção da realidade tenha se tornado realidade.

Naquele dia, a enxaqueca insistiu em não me deixar sozinho por muito tempo, e ainda havia a festa que prometi ir ao me despedir dos colegas de trabalho. A expectativa era presente aqui e lá, talvez mais lá do que aqui. Se eu fosse, veria as mesmas pessoas, ouviria as mesmas conversas e riria um pouco das mesmas anedotas. Tomaria dois ou três copos de vinho, ouviria música alta e veria mulheres em seus vestidos requintados e bonitos.

Depois de destrancar a porta, fiquei na entrada por alguns minutos, observando o corredor com a respiração pesada. A sala pulsava com um brilho assustador. Me livrei da bolsa tiracolo no corredor, chutei meus sapatos no canto, fui até o quarto e pensei em jogar meu corpo na cama. Parecia um plano razoável e por um segundo me senti livre das garras sedutoras da festa. Se eu dormisse por um momento, um longo momento, ninguém perceberia minha ausência. Eu seria uma pessoa sem importância.

À primeira vista parecia ser uma luz branca, mas a cada segundo ela flutuava por várias cores e sombras. De um jeito tão sutil que passei a me perguntar se estava vendo coisas.

Um cheiro de mofo me envolveu, como se viesse de um quarto que não se abria há muito tempo, mas estava cansado demais para investigar. Minha mão apalpou a parede em busca do interruptor de luz e algo peludo me tocou. Retirei a minha mão rapidamente, e sem conseguir alcançar o interruptor, caminhei na direção oposta.

O quarto inteiro, o seu aspecto, me trouxe de volta à ansiedade. A sensação de “déjà vu” me atingiu com tal intensidade, a ponto de me deixar atordoado. Se eu fechasse meus olhos, poderia registrar vozes ao meu redor.

Quando dei por mim, estava deitado de costas na cama. Fiquei olhando para as paredes e o teto, tentando evitar a onda repentina de náusea. 

A cama era macia, e havia um cobertor muito fino e azul sobre mim. Olhando para o alto, vi a luz que vinha da velha cortina da janela do quarto de dormir. Essa estranha cortina, fora da moda dos dias de hoje, estava amarelada, tinha um cordão torcido de fios dourados pendurados, com um nó desproporcional amarrado na ponta. Havia uma mancha familiar na cortina, talvez água, que mais parecia com uma cabeça de tigre que saía de uma flor. Me sentei na cama com um suspiro apático e satisfeito.

Do outro lado do quarto, na parede oposta, havia dois quadros com molduras castanho-avermelhadas, que por vezes olhei sem me aperceber que estavam lá. Em um deles estava o quadro pós impressionista: Tournée Du Chat Noir, de Henri de Toulouse-Lautrec. No outro, um gato em esquis, usando protetores de ouvidos, azuis, e sentado em um banco de neve. Quando criança, olhava da minha cama para esses gatos, e os imaginava como parte significativa do meu pequeno universo. Havia também outros objetos familiares, a pequena estátua em louça esmaltada de Nossa Senhora Aparecida, que me parecia triste com os olhos melancólicos. Ao lado estava uma pequena estante de livros, na sua maioria de conteúdo infantil.

 

A sombra provocada pela luz que vinha do lado de fora, trouxe por um segundo a presença de minha mãe. Embora ela não estivesse mais viva, esta sombra trouxe a sua lembrança. 

“Mamãe!”, disse em voz alta.

Esta foi a minha reação natural. A sombra voltou a ser sombra novamente no quarto pouco iluminado.

Joguei novamente meu corpo exausto na cama e respirei fundo, minhas mãos imediatamente alcançaram minha testa em um gesto desesperado de tédio, pensei em me livrar deste pesadelo e ir à festa. Agora as imagens do teto se transformaram em um animal selvagem que invadiu a minha solidão sem pedir permissão. Seria essa besta selvagem que tocou a minha mão? Se abrisse a janela, esta besta poderia fugir e me deixar em paz. O animal atravessou o quarto, saltou pela janela e me deixou com a brisa fresca. Ainda pensando naquele momento inesperado, olhei para as árvores no quintal, a goiabeira, o pessegueiro, e o opulento abacateiro.

 

Quando era garoto, o quintal era o meu lugar predileto, meu porto seguro, por vezes me escondi da vovó entre os galhos da goiabeira. Naquele quintal eu era invencível e o abacateiro conhecia todos os meus segredos.

“Como cheguei aqui?”, me perguntei.

A minha voz parecia fraca e nostálgica. Pelo menos a besta selvagem foi embora. A luz do por do sol entrou pela janela lateral, num sobressalto passei a olhar ao redor, no meio a um silêncio frio. Alguns dos meus livros ainda estavam nas prateleiras: Robson Crusoé, Ernest Hemingway, Clarice Lispector, Jorge Amado, poemas de Fernando Pessoa, Enciclopédia Britânica, revistas do Batman, Super-Homem, e tantas outras.

Por muitas vezes pensei em nossa antiga casa, e tinha a certeza de que poderia lembrar perfeitamente de tudo, mas havia tantos objetos que eu havia esquecido, como o mapa-múndi ao lado da porta e o armário do corredor. Estava no armário o álbum de fotos da família, e logo abaixo as roupas da minha mãe que cheiravam a naftalina. O banheiro continuava o mesmo, com azulejos de cor azul-clara e piso de cerâmica bege. Meu pai reformou o banheiro inúmeras vezes, e finalmente o entregou desta forma à família. Olhei para o canto em direção a sala, e me perguntei se o meus devaneios estavam completos. Estavam. O velho sofá marrom, a poltrona predileta de meu pai, a televisão de vinte polegadas, tudo parecia em seu devido lugar. Sentei por um momento na poltrona de meu pai e fiquei em paz.

Depois atravessei o tapete trançado em direção ao quarto da minha avó. A besta selvagem estava lá, deitada sobre a cama, sozinha, como a minha avó nas tardes de domingo. Eu sabia exatamente o que fazer e não tive medo.

Caminhei ao redor da cama e sentei ao lado da criatura. Fiquei bem próximo do seu corpo. A fera agitada olhou em meus olhos. Estendeu a mão e colocou a sua pata grande sobre o meu braço — exatamente como a minha avó costumava a fazer. Me deitei ao lado, e a besta me abraçou junto ao seu peito.

Ficamos assim por um longo tempo, em grande contentamento; quando acordei, o monstro tinha ido embora. O vento frio da noite veio da janela, fazendo com que a cortina tremulasse preguiçosamente. Senti frio em minhas costas. À distância, podia-se ouvir o som interminável da agitação da cidade.

A fera selvagem esperava à mesa as batatas que estavam sendo preparadas e quase prontas para serem servidas. Ela olhou para cima e ignorou a minha presença. Podia-se ouvir vozes vindas do outro lado da mesa, como o som de criança brincando ou recortando imagens de revistas. Havia uma pequena besta selvagem fazendo exatamente isto, com uma tesoura plástica vermelha, cortava as imagens de animais das revistas antigas. A pequena fera arrumou os recortes sobre a mesa: uma vaca, uma girafa, dois gatos e um elefante.

Sentei na minha cadeira predileta. O pequeno animal selvagem se instalou debaixo da mesa redonda, e chutou o pedestal, exatamente como eu costumava fazer quando criança. Os chutes eram aporrinhações. A pequena besta selvagem passou a chutar-me. Fiquei impassível. Recebi as agressões sem reclamar ou retaliar. Ao invés disso, peguei uma revista da pilha que estava ao lado do armário da cozinha e comecei a folheá-la.

Escolhi a revista “O Cruzeiro” de 18 de abril de 1953 — que já foi para o Brasil a “televisão de papel” antes de eu nascer. É estranho pensar que meus pais estavam lá naquele ano. Folheei a revista que tinha a figura de uma linda mulher na capa com um vestido vermelho. Havia a notícia da pancadaria na Praça da Sé — “Comunistas, punguistas e vadios agitam São Paulo”. Na página seguinte estava o anúncio de creme dental. Havia um editorial contundente sobre a separação das Coreias — “e termina o derramamento de sangue” — eu não sabia muito sobre a guerra. Outro artigo sobre um concurso de beleza: “As Belas de Santa Maria — pela primeira vez num hospital foi realizado um concurso de beleza”. Nunca pensei em 1953; entretanto, foram 12 meses nas vidas dessas pessoas, um ano inteiro de histórias, que de certa forma, moldou os anos que se seguiram. Eu não queria que o pequeno monstro cortasse as figuras da revista que eu estava lendo, então a escondi debaixo da mesa entre minha coxa esquerda e o assento da cadeira.

O relógio cuco na parede da sala estava parado e apontava 3:15. Parou a tarde ou durante a madrugada? Meu pai era o responsável por fazer com que o relógio cuco funcionasse precisamente sem adiantar ou atrasar um segundo sequer, como o Great Bell do Palácio Westminster de Londres. Todos os dias, quando chegava em casa, depois de passar o dia no escritório, entrava pela porta dos fundos, descansava o chapéu e o guarda-chuva na chapeleira. Cumprimentava a todos e não olhava diretamente para nós. Caminhava em direção a sala de visitas e ao cuco. Fazia certo de que as horas estivessem devidamente de acordo com o seu relógio de pulso, puxava as cordas até que os pesos chegassem a posição correta, com um movimento sutil elevava o pêndulo para a direita e prestava a atenção no tique-taque. Depois suspirava satisfeito. Caminhava mais alguns passos e alcançava o seu copo predileto, enchia-o com gelo e gin. Adicionava apenas uma pitada de vermute. Olhava ao lado, tirava o pote de amendoim seco assado do armário, colocava um pouco em uma tigela rasa e os chacoalhava até que todos os grãos estivessem nivelados. Então, sentava em sua poltrona e aguardava pacientemente o som do cuco.

Em breve o jantar seria servido: batatas, ervilhas, pequenos bifes de vaca, cobertos com cebolas e arroz com feijão. Abri lentamente os olhos e estava com fome.

Muitas vezes desejei voltar ao lugar da minha infância. Durante anos sonhei e tive pesadelos com aquele lugar e com cada um dos seus cantos. Os monstros do passado, grandes e pequenos, nunca saíram de lá. Faziam parte da casa. Nos sonhos, eu estava naquela casa. Nos pesadelos, ela estava em mim, e elas eram diferentes. Em outros sonhos a casa estava em um vale profundo, e não havia vizinhos, ruas ou cercas. Nada era como onde passei a minha infância. Lá, com meus monstros, eu era feliz. A mansão e o bairro não eram bonitos. Fiquei arrepiado ao olhar novamente o lugar onde cresci. Nunca entendi porque estas memórias me assombram.

Agora vejo que além da cerca ao redor havia campos, arbustos e capim que foram substituídos por casas e edifícios modernos. O poço havia sido tapado por motivos cautelares pela administração municipal. Apesar da falta de cuidados adequados, o quintal estava limpo, sem latas ou lixos. As paredes nunca foram grafitadas, para a minha surpresa. Tudo estava como antes, seus objetos e seus monstros. Caminhei lentamente lado a lado com o pequeno animal selvagem. Parecia que queríamos investigar algo que nunca havia sido revelado. Sentei no velho banco de madeira rústica, que era o lugar de leitura favorito de minha mãe. Talvez esta brisa que me agradava, pudesse iluminar a minha alma e seria o bastante para mim.

Certa vez, encontrei um cordão prateado no nosso pequeno quintal. Era um cordão pequeno com um camafeu e uma pedra pérola entalhada, cheio de lama. Minha mãe o lavou no tanque de roupas que ficava do lado de fora da casa. Nunca tinha visto algo assim. Eu encontrara um tesouro. Comecei a cavar buracos no quintal, com esperanças de encontrar mais relíquias e antiguidades para agradá-la. Eu sabia que se procurasse com atenção, encontraria tesouros. As crianças procuram e encontram tesouros. Os adultos não encontram seus tesouros porque não os procuram. 

Imaginei que soldados romanos passaram por ali quando marcharam em direção as batalhas. Talvez Aníbal e seus elefantes passaram por ali em direção aos Alpes, ou, o meu quintal era uma ilha onde piratas enterraram o tesouro que estava procurando. 

O terreno atrás da casa era duro e difícil de cavar. Continuei cavando. Gostava de ter um projeto em andamento. Cada semana era um buraco a mais, na esperança de encontrar algo. Toda pessoa tem um tesouro que está esperando por ela. Este interlúdio, ou o que quer que fosse, continuou. Alguns dias se passaram, e não me lembro quando terminei minha carreira como caçador de tesouros. Eu mal consigo lembrar da minha vida recente. 

Tudo acontecia lentamente — pessoas entravam e saíam da minha vida sem aviso. Me apartei de tudo e de todos, e estar ali não me fazia feliz ou infeliz. Meus ambientes se tornaram sem importância para mim. Sempre que troco de emprego, mudo para outro apartamento que não é melhor nem pior que o anterior, e eles não têm nada em comum.

Então, lá estava eu, percorrendo os caminhos que percorri na infância, olhava as casas dos meus amigos que deixaram de existir há muito tempo. Suas imagens se desfizeram como se desfaz a neblina da manhã. As árvores pareciam mais proeminentes do que antes e as casas tinham o formato e o tamanho adequados.Saboreava cada detalhe icônico. Cada encontro com as sombras, monstros e objetos me emocionavam, de uma forma quase impossível de descrever. Às vezes eu me via sorrindo tão apaixonadamente que as lágrimas me vinham aos olhos, pura nostalgia.

Assim, prossegui, aproveitando cada momento, investigando todas as velhas gavetas e armários em minha velha casa, examinando os artefatos simples, aqueles quase sem importância, dando boas-vindas a cada pequeno ou grande monstro que encontrava pelo caminho. Os seus abraços eram dóceis, suaves e calorosos. Os pequenos monstros brincavam alegremente, sem muita complicação. Não precisei ser outra pessoa para que eles me entendessem, nem despender esforços para me expressar, me sentia incluído e estimado, e isto bastava. Percebi que as palavras tinham sido minha ruína, que ao tentar explicar cada ação que havia tomado, causava um abismo entre as pessoas e eu. Talvez as palavras estivessem erradas ou houvesse algo diabólico entre elas.

Depois de passar um longo tempo retirando livros das estantes, olhando as epígrafes, ou, de fato, lendo-os em particular para adquirir um conhecimento mais excelente da vida e de seus aspectos, me via sem rumo, em um lugar desconhecido. Agora, os monstros, animais selvagens e feras vieram em círculo e me deram um abraço longo e caloroso. Havia prazer em seus corpos quentes e macios. Eles responderam aos meus sentimentos sem se preocuparem com as minhas palavras.

Eles me alimentavam com coisas antigas e novas, com lembranças, sonhos e pesadelos. A realidade se tornava impossível. O impossível se tornava realidade. 

Uma mulher de voz macia me visitou. Era uma mulher que aparentava cerca de trinta e cinco anos, de uma fisionomia gentil e olhos negros amendoados que lhe davam uma bela aparência exótica. Pensei que já a tinha visto em algum lugar antes disso, mas não consigo me lembrar onde. A semelhança me perturbou profundamente. Ela acariciou meus cabelos de uma maneira que só as mães sabem fazer. Me preparou banhos com água morna e perfumada, como se tivesse prazer em estar e cuidar de mim. Eu não usava roupas. Embora todas as roupas estivessem sempre limpas, passadas e empilhadas no guarda-roupa, a nudez era vista com naturalidade. Todas as coisas colaboravam com toda essa bondade que a vida me apresentava.
 

Os monstros me lembraram que não há necessidade de explicar minhas escolhas, agora ou no passado. Não preciso justificar nada que seja significativo para mim ou buscar a aprovação para as minhas decisões.

 

Estar sozinho é uma virtude. Estou sozinho, mas não solitário. A minha presença é agradável a mim mesmo. As palavras que cruzam a minha mente fazem sentido e não há conflito se não o fizerem. Eu sou minha essência.

Certa tarde, escolhi um livro na estante da biblioteca. Este livro me causou alguns problemas. O livro era “Náusea”, um romance filosófico do filósofo existencialista Jean-Paul Sartre. 

Sartre dizia:

“Meu pensamento sou eu: eis porque não posso parar. Existo porque penso… e não posso me impedir de pensar. Nesse exato momento — é terrível — se existo é porque tenho horror a existir. Sou eu, sou eu que me extraio do nada a que aspiro: o ódio, a repugnância de existir são outras tantas maneiras de me fazer existir, de me embrenhar na existência. Os pensamentos nascem por trás de mim como uma vertigem, sinto-os nascer atrás de minha cabeça… se eu cedo, virão para frente, aqui entre meus olhos — e sempre cedo, o pensamento cresce, cresce e fica imenso, me enchendo por inteiro e renovando minha existência.”

De repente, a felicidade invadiu minha assustadora realidade de vida — minha existência não precisa ser explicada. Eu simplesmente sou o que sou. As feras têm muito a dizer sobre isto.

Enquanto crianças, não pensamos no sentido da vida. Vivemos o momento. Inexplicáveis impulsos nos conduzem às descobertas novas, e também nos colocam em situações embaraçosas e muitas vezes perigosas. Me lembrei de um incidente que aconteceu há muito tempo.

Minha professora da sexta série era uma mulher alta com pernas bem torneadas, e elas eram muito visíveis em suas minissaias, no final dos anos 60. Certo dia inclinei minha cabeça o máximo que pude, para ter uma boa visão de suas pernas. Ela me pegou em flagrante e me levou ao Dr. Ortiz, o diretor da escola. Não era a primeira vez que agia assim, e a punição, mais uma vez, não parecia justa. Estava sendo quem eu era, um garoto descobrindo a sensualidade humana. A reprimenda me causou muita confusão e distorção da realidade.

Por que ela se aborreceu tanto com minha atitude?

Talvez ela pensou que eu estivesse tentando interrompê-la. Eu não deveria olhar suas pernas para que a aula prosseguisse sem perturbações.

É exatamente isso. Devo me comportar de acordo com os padrões éticos e morais para que o mundo não entre em colapso.

Não penso que a professora me odiasse, ou ao estranho prazer que tive em provocá-la. Ela era uma mulher dócil e gentil que tinha as pernas que chamavam a atenção. Talvez ela tenha falecido, esteja enterrada e esquecida.

Voltei para a sala de estar. Sentei novamente na poltrona de antes e fiquei sem saber o que fazer. Notei, contudo, que minha permanência ali, com meus monstros, parecia muito bizarra para se prolongar mais. Levantei e saí. O passado está distante e presente em minha memória. O tempo é poderoso, não apenas por manter o passado longe do presente, mas pela sua capacidade de nos transformar em historiadores de nossas vidas.

Quando meus pensamentos me disseram que eu existia, passei a acreditar que mereço aquele calor e conforto.

Foi então que percebi algo que me pareceu surpreendente a primeira vista: as feras começaram a se mover com grande agitação, estava claro que alguma coisa havia mudado. Tinha que haver uma explicação para toda aquela comoção.

Na verdade, parei de questionar a natureza dessa realidade, o que causou confusão na ordem das coisas. Eu não sabia como era o mundo além do que eu conhecia — se é como sempre foi ou se minha existência é apenas um universo dentro da realidade. Devo ficar ou deixar este universo? A existência abrange muito mais do que podemos perceber. As coisas que vemos, cheiramos, ouvimos, saboreamos e sentimos são as portas para a reconstrução da realidade pela mente. A realidade e os sonhos são muito mais interessantes do que podemos imaginar.

Saímos com pressa, todos de uma vez. Fugimos à noite.

Corri como nunca havia corrido antes. Corremos tão rápido que tudo começou a se mover em câmera lenta. Eu precisava acompanhar os passos largos das bestas selvagens ao meu redor, que pareciam me proteger de algo ruim que estava para acontecer. Corremos por uma longa viela que nos levaria para outro lado em direção a cidade. Agora, longe do passado, rodeado de monstros que me acompanhavam, restava-me viver o presente.

 

Continuamos correndo e descemos a ladeira como se estivéssemos sendo perseguidos, embora não houvesse ninguém atrás de nós. Não podia ver ou ouvir nada. Quando exausto, parei para recuperar o fôlego, os animais formaram um círculo ao meu redor. Nesta inusitada ação, me senti protegido. Então prosseguimos para a cidade baixa. Um dos monstros decidiu liderar o caminho sob um céu de estrelas prateadas.

“Devo ter cuidado? Qual o perigo que estou correndo?” Pensei.

Confiei completamente em meus monstros. Certamente me conheciam muito bem. Sempre estiveram comigo, embora eu nem sempre estive com eles.

Passamos por hotéis de baixa categoria e botequins, e agora começamos a andar lentamente. À frente, a luz de um poste no escuro me atraiu. Uma estranha forma surgiu na penumbra. Deixei os meus companheiros e segui em direção àquela forma exótica. Todos os meus monstros se voltaram contra mim. Me agarraram pelos ombros e não me deixaram caminhar. Fiquei sufocado e envergonhado. Me levaram em outra direção contra a minha vontade. Depois de alguns minutos, consegui respirar novamente e fui liberado.

As bestas selvagens agitavam os braços aleatoriamente, entendi que estavam decepcionadas comigo. Me cercaram novamente e me olharam com olhos selvagens, grandes, expressivos e dourados. Estes monstros são animais musculosos, com ossos fortes. Suas cabeças são grandes com orelhas altas. Seus corpos são largos e as pernas são grossas. Eles têm um pelo macio e espesso, que parece seda. Quando querem, podem descarregar um grande peso de culpa sobre meus ombros. Não houve necessidade de explicação. Mais uma vez, meu impulso por coisas novas causou confusão e distorção da realidade.

Não foi a primeira vez que as bestas selvagens ficaram aborrecidas comigo; sempre que reagiam assim, eu me sentia inseguro, desanimado e desprotegido. Eu não escolhi estes monstros, eles me escolheram. Eles são apenas sombras da realidade que ainda está por vir — um fato desconhecido para mim.

Não tenho habilidades práticas de linguagem. As palavras têm tom malévolo para mim, e por vezes fizeram com que o mundo em minha volta se revoltasse contra mim. Isso significa que, mesmo que eu pareça inteligente, eu não sei como falar com as pessoas no dia a dia. Seria isto verdade? Será que não sei falar com as pessoas sem a ajuda dos meus monstros? Talvez alguém fale uma língua que só essas criaturas entendem — uma linguagem estranha.

Para o bem da verdade, eu sempre quis dizer algo que traduzisse os meus pensamentos e sentimentos, mas nem sempre é fácil encontrar as palavras. Talvez eu devesse ouvir mais e falar menos.

As feras continuaram andando. Era tarde e eu não tinha ideia de que horas eram. Me sentia impotente, e seria necessário um ato de Deus para me tirar daquele lugar. Eu estava cansado. Pensei na festa. Levantei a cabeça e decidi seguir as sombras do passado.

Chegamos a um lugar alto, de onde se avista um viaduto. Havia vários caminhões estacionados na escuridão.
Alguns deles estavam com a luz da cabine acesa. De repente, as portas traseiras dos caminhões se abriram e outros monstros apareceram. Havia um forte cheiro de animal misturado ao de gasóleo. Entrei em pânico e me agarrei em uma das criaturas por medo de me separar delas. Exausto, encontrei um lugar confortável para descansar a minha cabeça por um momento, no colo de uma besta selvagem. Senti aliviado porque entendi que havia sido perdoado. Fechei os olhos e dormi.

Quando acordei, estava em um lugar desconhecido — um deserto, empoeirado e seco. O ar era frio e a areia fina soprava sobre nós. Uma mulher apareceu a distância, ela me acenou com um lindo sorriso. Não se importou ao ver que eu não era um dos monstros.

Ela aparentava ser pelo menos cinco ou seis anos mais jovem do que eu, tinha cabelos castanhos que caíam em ondas suaves sobre os ombros. Usava uma jaqueta escura sobre uma camiseta branca e bermudas. Os olhos eram negros e vivos, e seu olhar era doce. Os pés calçavam sandálias presas nos dedões. Não era nem magra nem gorda. Quando andava, trazia consigo uma sensualidade única.

Estava curioso. Afinal quem é essa mulher? O que ela está fazendo aqui, no universo das minhas ideias e devaneios? Eu a segui com os olhos até um banco em que se sentou e passou a olhar para o nada. Acenei para ela.

 

Aproximei e perguntei: “Você pode me entender?”

“Algumas vezes”, ela disse.

“Por que estamos aqui?”, perguntei.

Ela não respondeu. Não havia necessidade de dizer alguma coisa. Sua presença era mais expressiva do que as palavras. Ela se levantou e foi até um dos caminhões. Por um momento, pensei que ela estava em meus sonhos. Não podia afirmar se ela era real ou apenas um eco de uma mulher conhecida. Seu cabelo estava deslumbrante com o vento. O carisma e a paz que sua presença refletia me acalmaram. Me senti seguro, coisa que não acontecia sem a presença dos meus monstros. Não tínhamos um passado em comum. Ela trouxe uma garrafa de vinho e dois copos. Eu queria dizer algo e perguntei: “Qual é o seu nome?” Mais uma vez não obtive resposta. Ficamos em silêncio por um momento e tomamos o vinho. Coloquei minha cabeça em seu colo e fechei meus olhos.

Em seguida, olhei em volta e as bestas selvagens haviam sumido. Em seus lugares estavam mulheres. Não havia homens entre elas. Caminharam calmamente em minha direção, com olhares meigos e delicados. Quando se aproximavam, sorriam e desapareciam, uma a uma. Para onde estavam indo? Talvez estivessem morrendo… Passei a procurá-las nas ruas, nas esquinas e atrás da casa. As sombras das árvores se misturavam com as figuras das mulheres. Suas aparições não eram mais que uma distorção da luz. Elas foram embora tão rapidamente quanto chegaram; desapareceram, sem deixar nenhum vestígio.

Entrei na mansão mais uma vez e me deparei com outra mulher. Era jovem, bonita e de pequena estatura. Estava deitada no sofá, e parecia ter dificuldades para respirar. Sentei ao seu lado. Ela começou a desaparecer diante dos meus olhos, como se estivesse nos meus sonhos. 

Fiquei novamente só. 

Fechei os olhos com o horror das alucinações e, ao abri-los novamente, percebi que a casa foi atingida por uma forte rajada de vento, que bateu com força nas venezianas e jogou os grossos arbustos contra as paredes. 

O vento soprava, e trazia o som de vozes femininas gritando em agonia e pânico, que vagavam no quintal dos fundos e ao redor.

Tudo ficou estranho e muito perturbador para mim. Parecia que meu mundo estava se desmoronando, e eu só queria deixar aquele lugar.

Sempre foram os monstros. Foi o pequeno monstro peludo que começou tudo. Eles eram um sinal de alerta para o que estava por vir, ou a causa. Devo estar sempre preparado para a próxima “coisa” que virá. Se as alucinações não fossem assustadoras, seriam engraçadas e amigáveis. No entanto, eram horríveis, como um pesadelo que não conseguia parar. Talvez se não fossem os monstros, a minha vida teria sido outra.

A velha mansão não era nada mais do que tijolos, madeiras e tubos. Quanto tempo as paredes poderiam suportar as boas e tristes histórias, as risadas e os lamentos, a realidade e os sonhos do passado? Esta velha casa era minha única esperança de escapar do cativeiro antes do amanhecer. Anos antes, eu havia vagueado por estes quartos, agora era hora de deixar cada centímetro desta casa, meus monstros e minhas ilusões.

Saí da casa e caminhei sem direção. Ainda era noite, mas agora havia uma luz incrivelmente brilhante vindo da lua, que era a maior que eu já havia visto na minha vida. Ao longe, vi aquela que me ofereceu vinho. Vi a mulher parada ali, olhando para mim, e senti minha energia de uma forma que nunca tinha experimentado antes. Contemplei sua beleza e pensei que poderia mudar o presente. Me senti tão forte que poderia mudar o passado e o futuro também.

Quando ela se aproximou, consegui vê-la melhor. Em volta do seu pescoço estava um magnífico colar de diamantes e safira.

Sentei ao seu lado no meio da noite, o céu estava muito escuro e as estrelas brilhavam. Ela tocou o meu rosto com a mão esquerda e acariciou suavemente enquanto tentava dizer alguma coisa. Seus lábios disseram: “Por que refugiarmos no passado quando podemos nos deleitar no presente?” Segurei sua mão e a abracei com força. Não estava com medo, e o seu calor me aqueceu.

Foi a natureza selvagem que me comoveu, o desejo primordial, as necessidades absolutas de duas pessoas solitárias, em um lugar estranho, encontrando rapidamente maneiras de satisfazer a alma uma da outra, em uma paixão animal. Tenho um passado e uma consciência.

Éramos dois fantasmas do passado.

Nunca vou saber se foi apenas uma ilusão caprichosa em uma noite fria, ou se ela realmente estava lá.

A manhã chegou com chuva miudinha e nevoeiro denso. Não havia ninguém ao meu lado. A minha vida tinha que continuar e revisito o passado frequentemente em meus sonhos, pesadelos e ilusões. É como se eu estivesse assistindo a vida de outra pessoa. A minha memória é como um vídeo de alta definição — um filme popular nas décadas de 1960 e 1970.

Quando me pergunto se sou a mesma pessoa, geralmente quero que a resposta seja “não".

No entanto, o passado ainda vive em mim e ainda sinto culpa, vergonha, medo e arrependimentos. Fico feliz em ter tomado a decisão de revisitar o meu passado.

 

Agora o que faço? Não tenho a menor ideia. Não conheço ninguém que tenha passado por uma experiência como a minha, além disso, quantas pessoas conheço… somente uma.

Se eu fosse reinventar minha existência, teria que me basear no que sei e o ciclo recomeçaria.

 

Se eu não quero me tornar alguém como meus monstros, então para aonde vou? Não conheço nada além dos lugares que descrevi, mas para quem descrevo? Entretanto, se eu me calar, simplesmente deixarei de existir.

 

Acho impossível dizer se o que passei foi bom ou ruim. Só me resta continuar a existir de uma maneira diferente do que tenho sido até hoje. Talvez, o que me falte seja um pouco de poesia em minha vida.

 

No fundo, não importa se a voz que me fala, vem de dentro ou de fora, dos monstros ou das minhas memórias, se estou louco ou não. O fato é que essa voz com quem diálogo diariamente, é a voz que me faz pensar no oposto que sempre fui.

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