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Por Mauro C. Souza


A ESPERA

"Acorda dorminhoco . . . É hora do seu remédio”, disse a voz dentro de mim. Eu não queria acordar do sonho que estava tendo. Parecia o meio da noite, mas na verdade, já passava das 10 da manhã. As cortinas escuras e pesadas deixavam o quarto totalmente escuro. Silenciosamente saí da cama, abri as cortinas um pouco e deitei na cama novamente, pensando em silêncio. Me sentia aliviado por finalmente estar sozinho no quarto iluminado.

Nunca me senti tão cansado. Ontem à noite, caí em um sono profundo por volta das 3 da manhã. Sonhava com ela repetindo as mesmas coisas estranhas para mim. Seu rosto era lindo e delicado. Seus olhos eram de um azul profundo, seu cabelo escuro e comprido com ondas suaves. Fazia algum tempo que eu esperava a sua chegada, e agora a observava subindo o longo e tortuoso caminho até as margens do Sena em minha direção. Quando se aproximou, fui ao seu encontro e a recebi dentro dos meus braços por um longo tempo.

 

Depois de protestar, fui à biblioteca, enrolado em um cobertor e passei o resto da manhã lendo. Quando chegou a hora do almoço, fui para a cozinha, peguei uma maçã, fui para o meu quarto e peguei meu notebook, voltei para a sala e continuei lendo entre uma mordida e outra na maçã. À tarde, como de costume, preparei-me para ir ao café bistrô em Saint-Germain des Prés.

São duas e meia da tarde. Estou no Café Les Deux Magots, a comer sanduíche misto: fiambre, queijo Comté; e tudo parece normal. Este lugar desempenhou um importante papel na vida cultural de Paris. Peguei um jornal e sentei-me confortavelmente no terraço ensolarado enquanto imaginava os dias em que Ernest Hemingway, Albert Camus e Pablo Picasso frequentavam este lugar regularmente. Tanto o gerente, quantos os garçons são sempre atenciosos, mas tenho preferência por Pierre, que se aproximou, confidencialmente, e disse: "Comment allez-vous aujourd'hui monsieur?”.

 

Já faz um bom tempo que estou sentado à mesa deste café. Verifiquei meus e-mails mais de uma vez, olhei para minhas redes sociais, atualizei meus aplicativos e li as últimas notícias. Não há mais nada que meu "smart phone" tenha a oferecer. Depois de repousá-lo sobre a mesa, passei a observar ao meu redor. Em Paris, sempre há algo para todos. Você pode não querer fazer nada mais extenuante do que sentar em um dos muitos cafés ao ar livre, vendo as pessoas passarem e absorver a atmosfera única da cidade.

 

Tenho um caso de amor com Paris desde que cheguei, há seis anos. Tenho certeza que você também vai se apaixonar por esta bela cidade luz. Olho em volta e as pessoas estão rindo e falando alto. Um jovem casal parece feliz, aproximando-se um do outro. Talvez afeto, ou talvez eles estejam tentando ouvir um ao outro. De qualquer forma, eles parecem um casal romântico.

 

No canto da sala, está um homem baixo com boina francesa, sentado sozinho. Ele me acena com a cabeça e sorri, sua atitude me deixa imediatamente à vontade. Entre as poucas mesas vazias da sala, do outro lado, bebendo absinto entre baforadas de cigarro, está um sujeito magro e bonito, cujo “blazer” azul-escuro e camiseta branca revelam elegância e requinte. Seus olhos estão mergulhados no jornal.

 

Desisto de observar meus companheiros clientes e tomo minha própria bebida, depois afundo na preguiça, olhando fixamente para a porta, esperando. Estou acostumado a esperar. Já fiz isso muitas vezes antes e, em um minuto, ela vai aparecer, ajeitando o cabelo para trás, um pouco atrapalhada, se desculpando, linda. Ela sabe que vou perdoá-la. Ela sabe que será a sua presença o que importa, não o que aconteceu antes, quando a vi pela última vez. Quando eu a vir, meu coração se elevará e se expandirá. Imagino que possa, afinal, em meus sonhos sonhar com ela, com seu corpo. Tudo é apenas um sussurro da minha imaginação e fico impassível. Nada mais importa, apenas o desejo. A dor da espera se dissipará no desejo de estarmos juntos. Agora, no futuro e para sempre, enquanto durar.

 

A porta se abre, ela entra, radiante, embora um pouco nervosa.

- “Cheguei!” Ela disse, sorridente, e com um jeito fingido de alguém que decidiu se alegrar no meio as dificuldades. - “Você ainda está aqui, e sozinho?” Seu rosto é uma mistura de constrição, expectativa e felicidade. Espero que o aperto em meu coração diminua. Percebo que não há constrangimento. Meu coração bate lentamente, enquanto ela com delicadeza se apressa a assentar ao meu lado à mesa.

 

Ela se aproxima e percebo que há algo pior do que esperar uma hora por ela. Pior do que me perguntar se ela me ama, se tem algum respeito por mim, se significo algo para ela; estes pensamentos são piores que a sua ausência. Agora entendo que pior ainda é quando ela se inclina para me beijar, pronta para ser perdoada. A sua presença não tem mais o poder da reconciliação.

 

Gostaria que não tivesse vindo, agora que está aqui, sentada à minha frente, pegando minha mão, inclinando-se perto de mim, sou tomado apenas pela percepção entorpecida e cinzenta de que não me importo mais. Meu coração já morreu, e ela ainda não percebeu. Gostaria de poder voltar àqueles momentos de espera antes de ela chegar, quando estava olhando para a porta, como o senhor baixinho de boina francesa, voltar a bebericar minha bebida, observar os rostos das pessoas e esperar. Eu gostaria de poder apenas continuar esperando, esperando por alguém que realmente me ame.

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